Aqui é o espaço para a música vocal, a capella ou não, brasileira ou estrageira, não importa o estilo, desde que seja boa!
domingo, 10 de outubro de 2010
Duas vozes, dois violões, um contrabaixo e muita música...
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
A canção e a palavra...
A canção se intrometeu onde a palavra reinava
E juntas fizeram arte
A palavra protestou entre vozes e risos
Preferiu rótulos ao invés de recusá-los
Proferiu desafios
Praguejou...
A canção e a palavra se perderam sem argumento
Cancões, melodias e versos
Textos, palavras e versos
Se são versos, por que são diferentes?
Por que falam da mesma coisa por meios diferentes?
Por que se diferenciam em formato se elas se nutrem da mesma matéria?
Por que usam o mesmo veículo, nosso corpo, nossa mente?
Se são melodias, por que nem sempre as cantamos?
Por que são difíceis de serem entendidas se não houver palavras?
Por que têm estruturas tal como os versos?
Por que somos forçados a ouví-las?
Se há palavras, quase sempre há canções
Se há canções, nem sempre há palavras
Se verso ou prosa, há também ritmos tal como nas melodias
E se são melodias, são canções... quase sempre...
E se são textos, são poemas... quase sempre...
Então não há poesia no protesto? Claro que há!
Há poesia, portanto, num simples cantar? Certamente...
A canção e a palavra são químicas
A canção e a palavra são ritmicas
A canção e a palavra protestam, queixam-se, desafiam
A canção e a palavra caminham lado a lado, mas se separam quando se tenta anulá-las
A canção e a palavra não têm fronteiras, mas todos sabem de onde elas vêm
A canção e a palavra brigam entre si, mas todos sabem quem é quem
A canção e a palavra calam a boca de quem não as tem
A canção e a palavra são artes que faço para o meu bem
A canção e a palavra não são de ninguém...
À canção e à palavra digo amém!
Vive la Liberté!
Nesta última sexta (14/05/2010), fui a uma apresentação do Canto do Rio, um belo grupo de cantores liderados pelo meu amigo Paulo “Pauleira” Malaguti, no Casarão do Austregésilo de Athayde, no Cosme Velho. Começaram com “Uva de Caminhão”, do Assis Valente, que me fez voltar no tempo, aos idos anos 80, quando assistia aos shows do Céu da Boca, outro grupo sensacional também liderado pelo Paulinho. Com todos os arranjos vocais assinados pelo Pauleira, o grupo fez várias músicas, inclusive uma do Led Zeppelin (Friends, do álbum “Led Zeppelin III”) que ficou muuuito boa! Cantaram também “Chovendo na Roseira”, do Tom (quase o mesmo arranjo que hoje é feito também pelo Coral Harte Vocal, a exceção de uma modulação que, ao revisá-lo, ele introduziu na parte final). Outra coisa que me trouxe boas recordações foi uma versão que eles cantaram para “Laser”, do José Miguel Wisnik, a mesma música que o Vocalise gravou anos atrás, na Voz (o V maiúsculo foi proposital) de Clara Sandroni, convidada especial da noite. Aliás, ela e o Paulinho fizeram um duo maravilhoso apresentando algumas músicas de seu próximo CD, exclusivamente na formação voz e piano, a ser lançado em junho (essa vocês não podem perder!). Depois, o coral voltou para outras músicas e um bis sem sair do palco (realmente ia dar um trabalhão e o mais prático foi ficar ali mesmo, pra alegria de todos).
No dia seguinte, atendendo a um convite do flautista Kim Ribeiro, de quem tive a honra de gravar um belíssimo samba em seu disco “40 Anos de Música”, fui para uma gig de amigos: ele, Valéria Mendonça e Beth Dau. Na verdade eu fui de motorista, dando uma “little help for my friends”, mas acabei cantando. Depois, comida japonesa (deliciosa, apesar do atendimento caótico) e... Lapa!!!!!!!!!
Na Lapa, mais precisamente no Restaurante Lapinha, fui ver um show do BR6, em companhia da guerreira Beth Dau! Lá, ainda encontramos com Paulo Malaguti e Dani Spielman. Show animado, divertido e ousado (todo a cappella) de um grupo que já conquistou o mundo. De fato, eles já cantaram até no Japão e na Bélgica. Na formação, indo do agudo ao muuuuito grave, os amigos Chrismarie Hackemberg, Deco Fiori, Marcelo Caldi, André Protásio e Simô, além da luxuosíssima percussão vocal (sim, qualquer hora eu comento sobre o que é isso) de Naife Simões. No repertório, músicas dos 10 anos de carreira do grupo, tais como Tanta Saudade (Djavan/Chico), Bala com bala (Bosco/Blanc), Águas de Março (Tom), entre outras. Rolou até Tim Maia (Não vou ficar), com um solo “soul music groove style” da Chrismarie. Enfim, um ótimo divertimento! Ao final, longos papos e histórias impressionantes com a Chris e Simô. Falei com todos e os parabenizei pelo belo show, além de arrematar o último CD, “MPB a Cappella II”.
E no domingo, pude conferir os dotes culinários de uma grande amiga, que preparou um magnífico macarrão com molho de berinjela e ricota, regado a um saborozíssimo Carmenère chileno (sugestão minha) na companhia de outros amigos queridos com quem cantei em outros corais e ... por aí... Uma grande confraternização! Uma vez que portas e janelas estão novamente abertas para o mundo, resta a luz no fim do túnel...
Novas vozes no pedaço...
Outra voz de respeito e também outra amiga de muito tempo: Ilessi. A menina que vi crescer se tornou uma ótima cantora! Lançou um CD de nome "Brigador", com belíssimas canções de Pedro Amorim e Paulo César Pinheiro. Aliás, o disco todo é de composições da dupla. Ouçam!
sábado, 1 de maio de 2010
Vocabulários...
Na Lapa tem vocal...
As vozes estão muito bem juntas, porque separadas são outro show a parte: Clarisse Grova, Célia Vaz, Fabyola Sendinno e Márcio Lott (da primeira à quarta voz, mesma formação desde sua participação no Prêmio VISA de 2005, em que o Vocalise foi participante também), tudo muito junto, bem timbrado (eu tava na cara do palco e pude ouvir bem, embora a sonorização tenha tentado puxar-lhes o tapete). Vozes profissionais de vasta história na Música brasileira (o M maiúsculo foi de propóstio).
Agora vamos falar dos solistas! Será que dá? São cantores de vozes maravilhosas e extremamente competentes, cuja experiência adquirida nesses muitos anos de estrada faz com que o vocal em grupo tenha emoção, palavra-chave nessa arte onde muitos trilham por vezes um caminho exclusivamente perfeccionista, se esquecendo do texto que dizem ou das emoções que cada frase musical suscita... É difícil, e não vou fazer isso, falar do solo de cada um: quem ouviu, ouviu... Eu ouvi e saí de lá modificado e feliz, mais uma vez e ainda bem! Mas de uma coisa posso falar: os solos e outras intervenções do segundo violão foram o “quinto cantor”, compondo com o magistral violão da Celinha, um mar de acordes e sensações deliciosas, conduzindo todo o show com maestria. Excelente!
Não me lembro do repertório para mencionar o que me chamou a atenção (uma instrumental do Tom que eles fizeram juntos estava sensacional, ainda mais com uma citação a "surfboard" inteligentemente colocada). Pena não lembrar o nome da música... Isso porque estou deixando de fora dos destaques as canções-solo que cada integrante realizou, por motivos óbvios! Pena também não lembrar aqui o nome dos músicos que os acompanharam, excelentes... Desculpa aê galera! E ao fim, depois do show, todos soltamos a voz em Amazon River, do Dori Caymmi, enquanto pagávamos a conta, já com outros músicos no palco...
Já tá mais que na hora não só deles lançarem um novo CD (aproveitei os abraços no fim do show pra cobrar rsrsrs) como da Dona Biscoito Fino tomar vergonha na cara e relançar o primeiro CD do grupo, de belíssimas canções e arranjos.
Nós Quatro: pra quem não conhece ainda e aprecia o melhor de nossa música vocal, vale a pena (e muito) conferir...
terça-feira, 13 de abril de 2010
Lá no Arranco todo mundo é bamba...
Já fazia tempo que não escutava a galera. Mais tempo ainda que não assistia a show de grupo vocal com instrumentos e isso me causou uma certa dificuldade, no início, para ouvir atentamente se tava tudo equilibrado (manias dos meus tempos de vocalista). Tirando a excitação da “estréia”, ie, o lançamento de um DVD, todos estavam radiantes e muito felizes, o que transbordou pra platéia! Nem foi possível perceber algumas indecisões ou ligeiros equívocos (por sinal, magistralmente contornados pela experiência dos cantores) que sempre acontecem, justamente porque a coisa é “ao vivo” (e ainda bem!). Show quente, vibrante, animado do início ao fim, mesmo que entrecortado por uma, talvez, ex-soprano lírica com aqueles vibratos flácidos cantando atrás de mim (sabe quando alguém canta uma nota longa que acaba se desdobrando em várias? Isso realmente irrita!). Fora isso, consegui prestar atenção em quase tudo!
“CANTA, CANTA MINHA GENTE” e “CASA DE BAMBA” abriram o show numa alegria só, seguidas de PÃOZINHO DE AÇÚCAR e AMOR NÃO É BRINQUEDO! Com uma “cozinha de responsa” (Bruno Cunha, Miúdo e Rodrigo Reis na percussão e Zé Luiz Maia no baixolão), Pauleira ao piano e Muri ao violão, o show transcorreu leve e bem organizado. As meninas, um caso a parte: belas, afinadíssimas, dançantes, sorridentes, cativantes, enfim, Ah meeeeuu Deus! Um repertório belíssimo de cerca de 20 canções, com destaque (na minha humilde opinião), além das que citei, para as canções AMOR, PRA QUE NASCEU? e DISRITMIA. Os arranjos vocais de todo o show estão primorosos, elegantes e refinados! É bom que se diga que mesmo sendo o samba um estilo aparentemente simples, cantar e, mais ainda, realizá-lo com maestria, retirando-o solenemente do lugar-comum, é tarefa pra poucos e a galera do Arranco sabe fazer isso muito bem!
Aqui fica, entretanto, um protesto: é uma injustiça que os grandes meios de comunicação e mesmo uma parte significativa do mundo do samba ainda não tenham se rendido à qualidade e extremo bom gosto musical do Arranco, tanto pela proposta musical, e consequente escolha do seu vasto repertório, quanto pelo acabamento final de cada música!
Me amarrei no vocal do Arranco.
Cantar bem assim é mais que um privilégio!
É Badêjo ou Badéjo?
domingo, 28 de março de 2010
Como cantar e ouvir ao mesmo tempo?
Tenho uma teoria, para uns bastante estranha, que o processo de canto para quem o inicia em coral está dividido em três partes: a fase da descoberta da própria voz, a fase da melodia e a fase da percepção da harmonia. Quem alguma vez já cantou em coral sabe o que vou falar daqui pra frente nessa singela postagem.
No início, se você começa a dar seus primeiros passos em coral de escola, como a grande maioria dos brasileiros (ie, sem partitura, aprendendo de ouvido), você descobre que pode cantar fora do chuveiro (para muitos a melhor acústica de uma casa) e só tem ouvidos para aquela pessoa do seu naipe que (graças a Deus!) canta a mesma coisa que você. É um alívio, né não? E escutar o naipe todo? Muitos levam meses pra fazer isso! E assim você vai confortável, muito bem mesmo, principalmente se você for soprano, que normalmente detém os temas e melodias principais. Se você for baixo (independente de sua altura), também é fácil. Até porque em corais que estão começando ou em arranjos mais simples feitos para esta formação e nível, a melodia do naipe dos baixos se não for aquele Tum Tum Tum básico vai ser outra coisa tranquila, tonal, beleza... afinal eles são a base, certo? Moleza... É, mas cantar em uníssono num naipe é dificílimo! Muita gente despreza esse detalhe e aí, já viu... A comitiva vai pro pantanal....
Se você for contralto ou tenor, aí você está perdido! Nada faz sentido, melodias estranhíssimas, sem contar que você nunca pode cantar sozinho para mostrar aos outros o que é que você faz no coral afinal, certo? (baixos por vezes também têm esse problema, mas no caso deles isso é muito mais divertido) Quem é que vai entender? Se não tiver texto então... Mas o que poderia ser um terrível limão é a mais saborosa e geladinha das limonadas. Segundo essa minha teoria maluca (?!), a segunda fase deste processo é muito melhor compreendida se você está num desses naipes porque, dali, você pode ouvir os outros naipes do coro. Ah, reconhecer a melodia principal nos sopranos, por exemplo, já faz você começar a pensar que aquelas melodias estranhas que você está cantando fazem sentido finalmente. Depois você reconhece o baixo. Muito legal... E assim você vai cantando e agora dizendo: eu canto em coral! Bacana, não é mesmo? Mas então por que quando acabam certas músicas (e às vezes elas nem chegam ao fim) o regente tá olhando pro coro com cara de vascaíno em dia de gol do Mengão (do Petkovic, aos 43 e de falta) em decisão do Cariocão? Muito simples. Não seria porque aquela coisa engraçada conhecida como tonalidade foi acompanhar as vacas daquela comitiva? Isso muitas vezes é causado não só pela falta de atenção (dos cantores e do próprio regente – e olha que eu já vi cada coisa....), mas pelo fato de nem todos terem a percepção do que está acontecendo à sua volta. Para isso, tem que passar para a fase seguinte.
A terceira fase, que infelizmente muitos passam a vida inteira sem compreender ou sequer perceber, depende de tempo, experiência, percepção (ouvido e sensibilidade) e treino. Ouvir e entender a harmonia que conduz a música que se está cantando (mesmo que intuitivamente) é uma habilidade para poucos, infelizmente. Você não só passa a ouvir todo o coro ao mesmo tempo (sim, isso é possível), como também passa a perceber e identificar as relações entre as notas cantadas por cada naipe (esse é um dos fundamentos do estudo da harmonia). E confesso que, por experiência própria, isso é muito mais fácil se você for tenor ou contralto, se você for mulher ou castrato... ai! (qualquer hora eu falo dessa galera) Ouvir até os divisi em outros naipes tem sabor especial... Ouvir todos eles ao final da “Noite” (belíssima composição para coro a capella de Ronaldo Miranda) não tem preço!
terça-feira, 23 de março de 2010
Uma bela voz
Faz uns seis ou sete anos, num belíssimo local chamado Arte Sumária, em Santa Tereza, no Rio de Janeiro (acreditem, mas há quem não saiba onde fica), que infelizmente já não existe mais, ouvi a Marianna cantando acompanhada de ninguém menos que Guinga ao violão... Ao término do show fui até eles e fiz especialmente para ela uma daquelas reverências tribais (daquelas em que se ajoelha, se levantam os braços pro céu e se move o corpo para frente) que a gente vê de vez em quando no cinema. É óbvio que depois desse mico caímos na gargalhada e, desde então, sempre que a vejo: reverências... reverências... reverências...
No dia 20/03/2010, numa bela tarde de sábado, após um saboroso lanche num daqueles bistrôs do Leblon, fui ao Teatro Café Pequeno ver um show da Marianna. Ela abriu o espetáculo com uma versão especialíssima de “Na carreira” (Edu/Chico), nome do show por sinal, com a Sheila Zagury arrebentando no teclado. Que interpretação! A banda, de primeiríssima (além da Sheila Zagury, Murilo O'Reilly, Luisinho Sobral e Fernando Leporace)! Depois foi pura cantoria... Ensaiei até uns uníssonos e contracantos aqui e ali. Teve também a participação de Alberto Rosenblit, em duas de suas mais recentes canções, num belo dueto com a Marianna. Aliás, outro dueto de fazer sonhar foi o que ela fez na canção “Navegante”, esta de composição de Fernando Leporace, seu irmão, ao piano (primeira vez que o ouço tocar este instrumento). Uma daquelas canções que dá vontade de fazer vocais e ficar cantando sem parar. Teve tanta coisa boa no show!
A Marianna é dessas cantoras que sabem interpretar uma canção, ie, dominam ampla e tecnicamente o repertório (coisa rara nesses dias) e transferem tudo pra emoção, já que a fase da técnica foi há muito ultrapassada. Ela se entrega, cai de cabeça e nunca se machuca! Sorri, chora, brinca, se diverte a cada acorde porque sabe, como ninguém, exatamente o que está acontecendo. Essa é a diferença entre “cantora” e cantora... A todos vocês: ouçam-na com atenção!
Reverências... reverências... reverências...